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Foto: Taynara Ercego  Modelo: Luana Donel
Playlist para essa experiência literária:


Uma noite sentado em frente ao espelho chorei. Deixei a lagrima escorrer em meu rosto, ser filtrada pela barba, chegar a ponta do queixo e finalmente pingar no chão, como um pingo de chuva que escorre pelas folhas das arvores e cai solitário para rapidamente se juntar a terra já embriagada pelo choro das nuvens.    
    
Um dia sentado em frente ao espelho sorri. Arrumei o cabelo, hidratei a barba, escovei os dentes, vesti minha camisa Armani e minha gravata. Devidamente mascarado, agora sim, finalmente estava pronto para encarar o mundo das pessoas mascaradas.  
   
Entrei no carro mascarado, fingia prazer com o silencioso motor. Liguei um som da moda. Cumprimentei meu vizinho mascarado, depois falei mal dele quando fiquei sozinho. Reclamei da mulher no volante. Buzinei pela demora do sinal abrir, não por estar atrasado, apenas estava interpretando meu papel.    
    
Cheguei ao trabalho, vários sorrisos mascarados sorriam para mim. Falei mal do chefe mascarado, mesmo sem ele fazer nada. Elogiei a secretária mascarada, a mesma secretária que dormiu comigo para conseguir uma promoção.
    
Ao final do dia, tinha um encontro com Cristine, minha esposa. Paguei um restaurante caro para não me sentir culpado em ser chato e exigente com ela. Fingia gostar de uma comida horrível. Ela fingia gostar da minha presença, mas quando o jantar acabasse, ela ia direto para a casa do Pedro, lá conseguiria tirar sua máscara e viver os prazeres de uma vida simples.
    
Depois de toda falsidade daquele dia, a secretária me ligou, não atendi. Cristine foi para casa do Pedro. O garçom me encarava esperando uma gorjeta. O menino de rua se aquietava esperando um ato de solidariedade. Minha arrogância desprezava a sujeira de sua roupa. O extinto de sobrevivência dos excluídos toma conta de si. Minha carteira é capturada rapidamente por ele que corre em direção a um beco. Neste mesmo beco a polícia “deu um jeito” no menino dias depois. Eu sigo para casa sozinho.
   
Lá estava eu novamente. Em uma noite sentado em frente ao espelho chorei. Mas antes olhei bem nos meus olhos. E quando a lagrima desceu e finalmente se misturou ao soalho da casa, sequei ela rapidamente e pensei. Que papel estou interpretando? Será eu ou a pessoa mascarada?
      
Com amor, Nando


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Se molhe ..

A tempestade chega, preciso reforçar a porta do meu coração, cada janela, cada fresta. Depois decidir se ficarei resguardado ou abraçarei a escuridão. Não há como saber onde é mais seguro.

O choro inevitavelmente vai vir. A proteção do interior de meu bombeador de sangue não me protege de mim. Na desolação da tempestade, pelo menos o choro se mistura a chuva.

Todos presumem saber. Ninguém deveras sabe. Ninguém pode intrinsecamente saber de mim. Nem eu.

E quando o sol chegar mais uma vez? Meus olhos claros não combinam com o sol. Talvez prefira a tempestade.

Com amor, Nando


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Estou olhando para esta tela branca a mais de meia hora. A barra pisca constantemente esperando eu continuar a escrita. Isso me irrita. O amor se distanciou de mim. A razão tomou conta de todo o mundo que existe dentro de mim. Procuro por um pouco de sentimento, para quem sabe, conseguir escrever alguma coisa. Sei que ele ainda está aqui, mas provavelmente esteja calejado de tanto sofrer. Preciso de você, apareça!

Nesta súplica desmotivada, sinto que ele reaparece, tentando ser esbelto, mas não consegue. Me recuso em apelar pensando nela novamente. Droga! Me recusando a pensar, pensei. Só assim ele consegue reaparecer, mas está triste, depressivo, pálido, doente. Várias pessoas tentaram curá-lo, mas em vão. O antibiótico que ele precisava estava longe. Resolvo trazer a razão como comandante do planeta EU. E em devaneios constantes duvido de tudo. Mas me sinto um robô. Sinto que estou sem saída. Pior que a atual situação da política brasileira. Preciso escolher o menos pior. Razão robótica ou sentimento desolador?

PS. Não bebi.

Nando Donel
Pintura de James Ensor
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Eu sei que devo escrever alguma coisa, por isso estou escrevendo. Mas o que eu devo escrever? Não sei. Vamos ver se até o final desse texto eu descubro. Estou ouvindo música clássica, Frédéric Chopim. Não gosto muito de Mozart. Gosto de Vivaldi. Eu não deveria ouvir música clássica, devo ouvir sertanejo, afinal todo mundo ouve. Olho para cima e em um curto devaneio penso no amor. Eu não deveria pensar no amor, todo mundo pensa em sexo, só sexo. Penso em maneiras de melhorar o mundo. Eu não deveria pensar em melhorar o mundo, todo mundo pensa em ser feliz, mesmo piorando o mundo.
   
Olhei para a parede branca esperando que ela se transforme em uma continuação para este texto que eu nem sei se irei publicar. A parede me fez pensar em vinho, vou ali buscar e já volto. Eu bebo vinho em uma xícara, mas eu não deveria, pois todo mundo bebe vinho em taça. Foi eu falar que não gosto de Mozart que me deu vontade de escutar Mozart. Na verdade eu gosto de Mozart, só enjoei daquela música famosa dele que todo mundo alguma vez na vida já cantarolou. Ainda não sei qual o significado que esse texto vai ter, se é que vai ter algum significado. O primeiro pensamento foi escrever algo que provocasse uma vontade nas pessoas em ser quem elas realmente são. Comecei a pensar e minha mente lembrou de mil perguntas e nenhuma resposta. Como somos confusos, a natureza do ser humana é confusa. Eureca! Talvez essa seja minha primeira resposta. Vamos ser confusos! Talvez seja a única maneira de descobrir as coisas, duvidar. Vou fazer outro parágrafo para que as pessoas continuem a ler. Ninguém gosta de parágrafos longos.
    
Como é ridículo o cabelo do Mozart nessa pintura que eu estou olhando agora. Daqui a cem anos iremos achar ridículo o cabelo de vários cantores famosos. Me veio mais uma pergunta. Será que a fama de música ruim perdura por muito tempo? Daqui cem anos vamos lembrar de Phill Veras ou Luan Santana? Ou será que ainda lembraremos de Mozart? Que texto mais louco. Mas prosseguirei por pura necessidade de escrever. Alguém vai ler? Não sei, nem sei se irei publicar. Voltando para o tema do texto, se é que em algum momento ele teve um tema definido. Como ser você mesmo? O que é ser você mesmo? Não seguir o que a mídia diz? Ou seguir o que a mídia diz é ser uma certa forma de você? E se você fazer o que pensa e sofrer represálias? Vale o risco? Se abster de opiniões é válido? Quem está certo? A solução é mergulhar nos livros? E se o mergulho for profundo e causar sérios danos a nós? Por que trabalhamos para viver? Será que vivemos para trabalhar? Quem organizou isso? Trabalhamos cinco ou seis dias por semana para juntar dinheiro para viver dois ou um dia. É isso? Não sei. Melhor fazer outro parágrafo. 
     
Está ficando grande esse texto e até agora não falou nada com nada. Acho que não devo publicar. Estou lendo os vários papeis grudados na minha parede para ver se consigo continuar essa narrativa. Na verdade continuar é a parte fácil, difícil é achar algum sentido para ela. O vinho começou a fazer efeito. Já posso falar besteira. Vou contar um segredo. Certa vez eu fiz algo que muitos não irão acreditar. Eu estava na minha cama lendo um livro quando ... Melhor eu não contar. Boa noite!
    
L.F Nando Donel